Ipanema: Pacificação leva cariocas e turistas a favelas e faz negócios crescerem
terça-feira, 29 de novembro de 2011Pacificação é a palavra de ordem. O Rio começa a perder sua fama de “cidade partida”, dividida entre morro e asfalto e, com a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em comunidades antes dominadas pelo crime organizado, cariocas têm subido ladeiras que não conheciam antes e, com eles, turistas, levando aos moradores a integração com a cidade organizada, e a oportunidade de novos e bons negócios.
Que o diga David Vieira Bispo, de 39 anos, que viu sua birosca no Morro Chapéu Mangueira, no Leme, Zona Sul da cidade, se transformar em ponto gastronômico prestigiado e premiado.
Com uma UPP instalada no local em 2009, sua feijoada de frutos do mar, conhecida apenas entre os moradores, ganhou fama na cidade e tem levado muita gente a subir a Ladeira Ary Barroso às sextas-feiras e sábados, dias em que figura no cardápio.
David diz não acreditar na virada que sua vida deu. “Hoje abro de segunda a segunda, almoço e jantar. Perdi meu futebol, mas valeu a pena. Conquistei uma freguesia que não posso decepcionar”, diz David.
Outra conquista foi o terceiro lugar no concurso Comida di Buteco de 2011, com o petisco “Tropeiro Carioca”, que leva feijão preto, couve, bacon, carne seca, paio e rodelas de laranja. O Bar do David foi o primeiro instalado numa favela a participar do concurso.
A clientela é eclética, conta David, incluindo até o ex-presidente do BID Enrique Iglesias, que no início do mês subiu o morro para comer feijoada com caipirinha de abacaxi com hortelã. Mas o que vem chamando a atenção do dono do bar são os grupos de senhoras que vão conhecer seu estabelecimento.
“Tenho recebido muita gente da terceira idade, é uma festa. E as senhoras não vêm aqui para tomar chá, não, vêm comer feijoada e tomar cerveja mesmo”, conta animado.
Já no alto da comunidade do Pavão Pavãozinho, no bairro de Ipanema, que se mistura à do Cantagalo, em Copacabana, a vista é de tirar o fôlego, e acabou dando nome à pensão Bela Vista, que tem como sócio o paraibano Jailto Laurentino dos Santos, de 35 anos.
Na pensão, ele montou um restaurante a peso, que é parada obrigatória para quem sobe o morro. O restaurante de comida variada, saborosa e de bom preço, funciona todos os dias, para almoço e jantar.
A UPP chegou dois anos atrás e, a partir de então, moradores começaram a subir as ladeiras para conhecer melhor aquele esquecido canto de seus bairros. Para chegar ao Bela Vista, pode-se optar pelo plano inclinado a partir da Ladeira Saint Roman, ou pelo elevador da Rua Barão da Torre, ambos em Ipanema.
receptividade do público tem sido tão grande que Jailto já pensa no réveillon:
“Vou tentar alugar o restaurante para festas. Daqui, dá para ver boa parte da queima de fogos de Copacabana”, conta ele.
Muito antes das UPPs, a comunidade Tavares Bastos, no Catete, também na Zona Sul, já vivia em ambiente pacificado devido ao quartel do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, instalado no alto do morro.
Vizinho ao batalhão, fica o The Maze, mistura de bar e galeria de arte que funciona na casa do ex-cinegrafista da BBC Bob Nadkarni, correspondente no Brasil desde os anos 70. Na juventude um pintor amador, ele resolveu abandonar o jornalismo e subir o morro para instalar-se numa casa de belíssima vista e se dedicar à pintura em tempo integral.
Em 2004, abriu seus terraço a grupos de jazz, que hoje chegam a atrair a cada apresentação de 500 a 800 pessoas. “Toda primeira sexta-feira do mês tem jazz ao vivo e, na terceira sexta-feira, tem a festa Labirinto, organizada por meu filho, que chega a atrair 300 pessoas”, conta Bob, dizendo que as noites musicais vão até as 4h.
A galeria de artes onde expõe suas obras fica aberta o dia todo. “Sempre tem alguém por aqui, não temos horário fixo de funcionamento”, diz ele.
Para chegar ao The Maze, é só subir a Rua Tavares Bastos até o final, pode ser de carro, ou nas kombis que levam os moradores ao alto do morro. “Mas pode vir de táxi também, todo mundo aqui conhece o The Maze”, diz Bob.
Mesmo antes de receber uma UPP, o que acontecerá nos próximos meses, segundo o governo do estado, a Rocinha, considerada a maior favela do Rio, atrai grupos de turistas que, da passarela que liga a comunidade ao centro esportivo, tiram fotos do colorido das casas que avançam pelo morro acima.
A feira-livre que acontece aos domingos já começa a atrair moradores de outros bairros, após a ocupação da comunidade por forças policiais no domingo (13).
Fonte: G1